telefonema ao pai
oi pai,
como o senhor está?
tudo bem por aí?
queria dizer, que não consegui pódios,
mas tô sobrevivendo
o mundo é muito pesado,
mas sempre lembro dos seus ombros
fortes, e contínuo a jornada
pai, publiquei meus primeiros poemas,
e consigo alimentar minha familia
com o ofício das suas mãos.
não tenho o seu talento, a maestria de lidar com as pessoas e de construir tetos para o mundo morar
não sou um bom ventre de habitações,
mas sou poeta, e escrevo o verso lembrando do mel dos seus olhos, que derramam doçura sobre mim, toda vez que nos vemos.
é pai, hoje aprendi que a morte não cria virtudes e nem seleciona o que permanece
são cinco da manhã, e não preciso te procurar, não preciso chamar o seu nome para ouvir sua voz
em mim, muito dentro de mim,
assim como na pele que me reveste,
você está
não como saudades, não como ausência,
não como carência de um afeto deixado na vitrine, que ninguém vai olhar
você está aqui, no caminho que devora meus pés, nas asas que me entregam o céu, na palavra que me vem,
e de mim sai:
salgando o peito do filho,
com a doçura do peito do pai...
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