Postagens

alongam-se os dedos e alago-me

cavas

tenho vivido anos, a procurar o pão a debulhar o trigo, com a fadiga da mão a ser debulhado nos dias, acorrentado no chão moído como a farinha, socado sob o pilão ferido no golpe da enxada, no solo em gestação e ver no ventre das cavas, o ventre suado do grão sentir ao fim da jornada, a morte do coração e sob a terra amarga, fechar-me como botão

ecossistema

parte de mim, devora, a flora da alma, nessa canção outra parte aflora, a fauna extinta no meu coração
ainda que o rito aprume a vértebra, e caia dos lábios louvores de gratidão, quem  permanecerá, quando o corpo eclipsar e só restar a alma? haverá um céu, para além da fome dos vermes? ou voltará à terra, como grão debulhado muitas vezes quantos altares merecerão incenso, mirra e sangue, além de poesia sem nenhum valor? valerá o sacrifício, que o tempo julga necessário? quem responderá, quando o nada for inquerido? haverá um céu, onde caiba o desejo dos homens, e uma terra, que os acolha por não mais sonhar
aos que sabotam o riso e engravidam a gente de lágrimas, afio a lâmina mais doce sobre suas cabeças, empalo-os ao palo seco do desejo, e os deixo às feras das suas próprias almas aos que drenam a vida e acumulam estrelas, apago o céu com suas retinas vazadas, arranco a luz com o prazer do útero, ao dar vida a mais uma geração

rotina

segues o rumo da lotação, com o coração pleno e as lentes  presas ao feed aos poucos, aprendeu a acotovelar para conquistar seu espaço, um pequeno lote que caiba o seu corpo e a vontade de chegar ainda menina,  leu o verso pendular da vida, quando traçou caminhos entre dois sóis e ao saber-se aurora, soube domar o desejo poente, e ao sorrir orvalho, não rejeitou o dia, que veio lhe visitar